DIU hormonal ganha espaço no tratamento da endometriose
Especialista
explica que a indicação de uso deve considerar o tipo de endometriose, os
sintomas e as características de cada paciente
Cerca de uma em cada dez mulheres brasileiras
convive com a endometriose, segundo estimativa da Sociedade Brasileira de
Endometriose (SBE). A doença, caracterizada pela presença de tecido semelhante
ao endométrio fora da cavidade uterina, pode provocar dor pélvica, cólicas
intensas e desconforto durante as relações sexuais, além de impactar a
qualidade de vida.
Entre as
opções para o controle dos sintomas estão os tratamentos hormonais e, desde
2025, o DIU liberador de levonorgestrel passou a integrar as opções
incorporadas ao Sistema Único de Saúde (SUS) para pacientes com endometriose
que apresentam contraindicação ou não adesão aos contraceptivos orais
combinados.
De acordo
com o ginecologista e obstetra da Clínica Ginelife, Dr. Marcos Tcherniakovsky,
diretor de comunicação da Sociedade Brasileira de Endometriose (SBE), os
anticoncepcionais hormonais estão entre as alternativas de primeira linha para
o tratamento da doença, podendo ser utilizados em diferentes apresentações,
como comprimidos, vaginais, injetáveis, implantes e DIUs hormonais. Analgésicos
e anti-inflamatórios também podem fazer parte da estratégia para controle da
dor. “Não existe uma alternativa única ou a melhor alternativa. A melhor é
aquela que se adapta a cada mulher”, explica.
Entre os
DIUs hormonais que liberam levonorgestrel, há 2 opções com diferentes dosagens.
Para pacientes com endometriose, segundo o especialista, o de maior dosagem
(52mg) é o mais indicado por conseguir
brecar o ciclo menstrual com maior facilidade e
por ter maior capacidade de reduzir a dor.“Quanto menos a mulher com
endometriose menstruar, melhor. Quanto mais menstruar, pior”, afirma.
O
dispositivo atua principalmente de forma local no útero, promovendo atrofia do
endométrio e reduzindo a ação hormonal sobre o tecido endometrial. “O DIU
hormonal é uma excelente alternativa para aquela mulher que não quer lembrar
todos os dias de tomar a medicação ou que tem dificuldade de adesão. Ele tem
uma ação mais local e funciona como método anticoncepcional e hormonal,
reduzindo a ação do estrogênio, que está relacionado à progressão da
endometriose”, explica Dr. Marcos.
Entre os
benefícios está a possibilidade de uso prolongado e a redução importante do
fluxo menstrual. Segundo o especialista, cerca de 65% das mulheres que utilizam
o DIU hormonal deixam de menstruar, o que pode ser positivo no controle da
endometriose.
A
literatura científica também aponta benefícios do DIU de levonorgestrel no
controle da dor pélvica e da dor durante a atividade sexual, além de sua
utilização na prevenção da recorrência da doença após cirurgia.
Apesar dos
benefícios, o método não deve ser indicado para todos os quadros. “Para
pacientes com endometrioma, que é a endometriose localizada no ovário, não
preconizamos o uso dessa medicação como tratamento da lesão, pois em alguns
casos a mulher pode ter estimulo no ovario e ovular. A indicação precisa
considerar o tipo de endometriose, os sintomas e as características de cada
paciente”, esclarece.
A
adaptação ao dispositivo também deve ser acompanhada com orientação médica. Nos
primeiros meses, a mulher pode continuar menstruando ou apresentar alterações
no padrão de sangramento, o que não significa necessariamente que o método não
esteja funcionando. “É preciso ter tranquilidade para aguardar a adaptação. Uma
mulher que coloca o Mirena pode ainda menstruar durante alguns meses. O médico
precisa explicar como funciona o mecanismo de ação para que ela entenda o que
está acontecendo com o próprio corpo”, orienta.
O
acompanhamento também é importante para verificar o posicionamento do
dispositivo e avaliar a resposta ao tratamento. Segundo o especialista,
alterações na anatomia uterina, como alguns miomas, pólipos ou malformações,
podem contraindicar o uso e devem ser avaliadas individualmente.
A
incorporação do DIU de levonorgestrel ao SUS representa mais uma alternativa
para mulheres que precisam controlar os sintomas da endometriose. O Ministério
da Saúde mantém protocolo específico para diagnóstico, tratamento e
acompanhamento da doença, que pode envolver estratégias medicamentosas e, em
casos selecionados, cirurgia.
“É um
método que pode trazer muita tranquilidade para a paciente, principalmente para
quem busca uma opção de longa duração e não quer depender da tomada diária de
um medicamento. Mas a escolha deve sempre ser individualizada e feita em
conjunto com o médico”, conclui Dr. Marcos.

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