Estudo da Unesp identifica alterações no sangue capazes de indicar risco de parada cardiorrespiratória até 48 horas antes do evento.

 

Uma pesquisa inédita desenvolvida pela Universidade Estadual Paulista (Unesp) trouxe uma descoberta promissora para a medicina intensiva. Cientistas identificaram alterações metabólicas no sangue que podem indicar, com até 48 horas de antecedência, um maior risco de parada cardiorrespiratória em pacientes internados. O avanço abre caminho para o desenvolvimento de exames capazes de alertar equipes médicas antes da ocorrência do evento, aumentando as chances de intervenções preventivas e de sobrevivência.


O estudo analisou amostras de sangue de 199 pacientes que sofreram parada cardiorrespiratória no Hospital das Clínicas da Faculdade de Medicina de Botucatu (FMB), entre agosto de 2021 e abril de 2023. As amostras haviam sido coletadas durante exames laboratoriais de rotina realizados até dois dias antes da parada, permitindo aos pesquisadores investigar alterações metabólicas que antecederam o agravamento do quadro clínico.


A análise revelou que determinados metabólitos,  moléculas produzidas durante o metabolismo do organismo estavam diretamente relacionados aos desfechos dos pacientes.Entre eles, o 2-metilbutiril-L-carnitina apresentou níveis elevados em pessoas que não conseguiram recuperar a circulação espontânea após a parada cardiorrespiratória e também naquelas que evoluíram para óbito durante o período de acompanhamento.


Essa substância participa do metabolismo energético das células e seu aumento pode indicar dificuldades do organismo em produzir energia de forma eficiente, sinalizando um estado de estresse metabólico grave antes mesmo da ocorrência da parada cardíaca.


Outro marcador identificado foi o triptofano, aminoácido essencial obtido por meio da alimentação. Os pesquisadores observaram que pacientes que morreram apresentavam concentrações significativamente menores dessa substância em comparação aos sobreviventes. Além de participar da formação de proteínas, o triptofano é responsável pela produção de serotonina, neurotransmissor ligado à regulação do humor, e de melatonina, hormônio que controla o ciclo do sono. A redução de seus níveis também pode estar associada a processos inflamatórios intensos e ao agravamento do estado clínico.


Os pesquisadores destacam que esses biomarcadores ainda não são utilizados na prática clínica para prever paradas cardiorrespiratórias, mas os resultados representam um importante passo para a criação de ferramentas de monitoramento mais precisas. No futuro, exames baseados nesses metabólitos poderão integrar sistemas de inteligência clínica capazes de identificar pacientes em maior risco e permitir intervenções antes que a parada aconteça.


A parada cardiorrespiratória intra-hospitalar é considerada uma das emergências médicas mais graves. Mesmo ocorrendo em ambiente hospitalar, onde há acesso imediato a equipes especializadas e equipamentos de suporte avançado, a taxa de mortalidade permanece elevada, em torno de 85%. Diversos fatores influenciam esse cenário, como a gravidade das doenças de base, o tempo de resposta ao evento e as condições clínicas do paciente.


Especialistas ressaltam que a identificação precoce de sinais biológicos de deterioração representa um dos maiores desafios da medicina intensiva. Atualmente, a avaliação do risco é baseada principalmente em parâmetros como pressão arterial, frequência cardíaca, saturação de oxigênio e exames laboratoriais convencionais. A descoberta de novos biomarcadores metabólicos pode complementar essas ferramentas e aumentar a precisão na identificação de pacientes críticos.


Os resultados da pesquisa foram publicados em uma revista científica internacional especializada, reforçando a relevância da descoberta para a comunidade médica. Apesar do potencial, os autores destacam que novos estudos, com um número maior de participantes e em diferentes hospitais, serão necessários para validar os achados e transformar a descoberta em um exame disponível na rotina hospitalar.


Se confirmados em pesquisas futuras, esses biomarcadores poderão contribuir para reduzir a mortalidade por parada cardiorrespiratória, permitindo que equipes médicas adotem medidas preventivas, intensifiquem o monitoramento de pacientes mais vulneráveis e desenvolvam estratégias de tratamento cada vez mais personalizadas. Por podcast edinhotaon / Edno Mariano

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