M.AI.Bundling: a dobra que vai virar os bancos do avesso
*Este artigo é um trecho adaptado do livro que cunha o termo M.AI.Bundling, que Linconl Rocha lançará em breve.*
Por que o futuro das finanças não será escolher um banco — mas comandar uma IA que faz os bancos competirem por você
Eu vi o sistema financeiro ser desafiado de dentro.
No começo de 2011, eu vivia na linha de frente de uma transformação que, na época, quase ninguém sabia nomear. A gente pegava o velho pacote do banco tradicional — conta, crédito, cartão, investimento, tudo amarrado num bloco só — e o desmontava, peça por peça. Era a era do "unbundling", e as fintechs eram o estilingue mirando o gigante.
O que eu não imaginava é que aquela quebra era só o segundo tempo de um ciclo bem mais longo. E que o quarto tempo — o que estamos vivendo agora — mudaria não "quem" monta o pacote financeiro, mas de que lado do balcão essa pessoa está.
O ciclo que se repete há séculos
Vale sempre uma nota de honestidade intelectual: os três primeiros termos abaixo não nasceram comigo. O bundling, como estratégia, foi formalizado na economia ainda no século XX — George Stigler o analisou em 1963, ao estudar a venda de filmes "em bloco", e William Adams e Janet Yellen (sim, a futura presidente do Federal Reserve) lhe deram tratamento matemático definitivo em 1976. O unbundling ganhou corpo no vocabulário corporativo a partir de 1969, quando a IBM passou a vender hardware, software e serviços separadamente, e foi popularizado no mundo das fintechs pela consultoria CB Insights, com suas célebres infografias "Unbundling of the Bank", por volta de 2014.
O rebundling, por sua vez, não tem uma paternidade única que eu tenha conseguido rastrear, mas consolidou-se como termo de mercado na esteira da ascensão dos super-apps e plataformas digitais, descrevendo o reagrupamento natural que sucede toda fase de fragmentação. Ou seja: bundling, unbundling e rebundling são heranças da literatura de economia, tecnologia e estratégia. O quarto tempo — o M.AI.Bundling — é a contribuição que cunho aqui.
Dados os devidos e honrosos créditos, voltemos ao contexto. Tínhamos um ciclo verificado no mercado financeiro:
Bundling (empacotar): alguém junta vários serviços num bloco e domina pela conveniência. O banco tradicional é o retrato perfeito. Você não escolhia as partes — engolia o pacote.
Unbundling (desmembrar): chega uma geração que pega uma única dor e a resolve melhor que o bloco inteiro. Uma fintech só de pagamento, outra só de crédito, outra só de câmbio. O pacote do banco vira linha solta no chão.
Rebundling (reagrupar): o cliente cansa de ter dez apps, dez logins, dez faturas. E aí surge o "superapp", o banco digital que vira plataforma de tudo. A roda gira: o que foi quebrado é remontado.
Esse ciclo já é conhecido. O problema é que quase todo mundo para de contar a história aqui — como se a roda fosse girar pra sempre no mesmo eixo.
Não vai. Uma força nova entrou em campo. E ela tem nome.
M.AI.Bundling: quando o poder atravessa o balcão
Os três primeiros tempos tinham algo em comum que ninguém percebia: em todos eles, quem montava o pacote era uma instituição. O banco montava. A fintech desmontava. O super-app remontava. Mas sempre havia uma empresa, do lado de lá do balcão, decidindo o que você consome.
O M.AI.Bundling rompe isso de vez. Pela primeira vez, quem monta o pacote não está do lado do banco. Está do seu lado.
O consumidor passa a ter seu próprio agente de inteligência artificial — uma IA que trabalha para ele, com ele, por ele, e não para nenhuma instituição, sem interesses conflitantes. E é esse agente que conversa com o mercado inteiro: bate na porta de dezenas de bancos e fintechs ao mesmo tempo, compara, negocia e garimpa o melhor de cada um. O melhor crédito de uma instituição. O melhor rendimento de outra. O melhor câmbio de uma terceira. O melhor seguro de uma quarta.
E aqui está a virada que muda tudo: o cliente não acessa mais banco nenhum. Não abre o app do banco, não navega no super-app, não escolhe produto. A única interface dele é a própria IA. O banco vira invisível — um fornecedor anônimo brigando, nos bastidores, para ser escolhido por um agente que não é dele.
No bundling, você engolia o pacote do banco. No unbundling, você montava o pacote na mão, app por app. No rebundling, um super-app montava por você — mas só com os produtos dele. No M.AI.Bundling, o seu agente monta o pacote com o melhor do mercado inteiro — e os bancos competem por você sem que você sequer saiba os nomes deles.
O poder atravessou o balcão. Pela primeira vez, ele está do lado de fora.
O trilho já está construído
Isso não é ficção científica. O trilho dessa dobra já foi assentado.
A linha do tempo das finanças digitais conta a história: Internet Banking em 1997, a explosão das fintechs especializadas entre 2000 e 2010, o Open Banking em 2018 e o Open Finance em 2021. Cada etapa abriu um pouco mais os dados e as conexões entre instituições.
O Open Finance, em particular, é a peça-chave: ele torna obrigatório que as instituições compartilhem dados e conectem serviços. Ou seja, ele cria exatamente os trilhos sobre os quais o agente de IA do cliente vai correr. Sem Open Finance, o M.AI.Bundling seria uma boa ideia sem infraestrutura. Com ele, é uma questão de tempo.
Os números confirmam a maturação
O mercado já não é o do hype. Depois do pico de US$17,4 bilhões em venture capital na América Latina em 2021, vieram três anos de correção dura. Mas 2025 marcou a virada: a região captou US$4,1 bilhões, alta de 13,8% sobre 2024 — a primeira recuperação real do ciclo.
E ela veio com uma característica reveladora: menos rodadas, cheques maiores. O mercado parou de premiar a empolgação e passou a premiar a lucratividade. O Brasil lidera com folga — mais da metade de todo o capital da região e cerca de 60% dos aportes destinados a fintechs.
O dado mais eloquente, porém, é outro: em levantamento da Nvidia com 600 profissionais do setor financeiro, cerca de 70% relatam que a IA já elevou suas receitas. A IA deixou de ser aposta. Virou infraestrutura. O combustível do M.AI.Bundling já está nas veias do setor.
O paradigma que você jura que é verdade
Em 2017, conheci de perto uma fintech que era um marketplace financeiro: o GuiaBolso. E ali encontrei um dos retratos mais perfeitos de como nossas certezas envelhecem rápido.
Quando o assunto era organizar as finanças num só lugar, os céticos repetiam, convictos: "Ninguém vai dar a senha do banco pra um 'site' qualquer organizar a vida financeira, não é?" Parecia óbvio. Parecia seguro. Parecia verdade.
Não era. Quando eu os conheci, 8 milhões de brasileiros já haviam confiado à plataforma suas credenciais de acesso (apenas de consulta, sem poder de movimentação) e não parou por aí e nem sei mais como está hoje em dia. O que cito aqui é que oito milhões de pessoas que, segundo o paradigma vigente, "jamais fariam isso".
O ponto aqui não é a fintech. O ponto é o paradigma. É a velocidade com que as nossas certezas mais sólidas — aquelas que a gente fala alto e bate na mesa — viram falácias em instantes. A frase "ninguém vai confiar sua vida financeira a uma IA" é exatamente a mesma frase de 2017, só que vestida com roupa nova.
A sombra que ninguém pode ignorar
Toda “dobra do tempo” cobra uma fatura. E a do M.AI.Bundling é a mais delicada de todas: a confiança no agente.
Se o seu agente de IA é quem decide tudo, surge a pergunta incômoda: ele trabalha mesmo para você — ou para quem o construiu? Um agente capturado por uma big tech, otimizado silenciosamente para empurrar produtos parceiros, deixa de ser o seu mordomo e vira o vendedor de outra pessoa disfarçado de assistente.
A próxima geração de vencedores não será apenas a que tiver a melhor IA. Será a que provar, de forma auditável e segura, que sua IA está do lado certo da mesa — do lado do cliente.
Afogado, mergulhador ou surfista?
Em 2011, eu estava do lado de quem quebrava o pacote. Hoje, olho para a esquina e vejo o próximo bonde apontando. Ele não vem para quebrar nem para juntar do jeito antigo. Ele vem montado por uma inteligência que aprende com você e negocia o mundo inteiro em seu nome.
E diante de uma onda dessas, existem só três tipos de pessoa:
O afogado — aquele que nega a onda até ela chegar. É quem dizia que ninguém entregaria a senha do banco a um site. É quem hoje diz que ninguém entregará suas finanças a uma IA. Ele não se molha por escolha; ele se afoga por teimosia.
O mergulhador — aquele que aceita a onda, mas reage embaixo d'água, tentando sobreviver ao impacto. Se adapta, mas sempre um passo atrás, no susto.
O surfista — aquele que vê a onda se formar de longe, posiciona a prancha e usa a força dela para ir mais longe do que conseguiria sozinho. Ele não luta contra a água. Ele a transforma em impulso.
A onda do M.AI.Bundling parece longe, terá tentativas de barreiras, mas ela já se formou no horizonte. Os trilhos do Open Finance estão postos. A IA já está nas veias do setor. A confiança do consumidor, como a história provou, vem mais rápido do que os céticos imaginam.
A única pergunta que sobra é a sua:
Nessa onda, você vai ser o afogado, o mergulhador — ou o surfista?
*Linconl Rocha é especialista em fintechs e inovação financeira. Preside a pagos.org.br - Associação Brasileira do Ecossistema de Pagamentos . Este texto é um trecho adaptado de seu próximo livro intitulado: “M.AI.Bundling — As Quatro Dobras”.*

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