Chroma key, LED e inteligência artificial não vão substituir a cenografia. Um cenógrafo que sabe usar essas ferramentas pode

 

Por Mateus José Olímpio de Souza

Sempre que uma nova tecnologia surge, alguém prevê o fim de uma profissão. Foi assim com a fotografia e a pintura. Com o cinema e o teatro. Com o streaming e os eventos presenciais. Agora, a discussão gira em torno da inteligência artificial, dos painéis de LED e dos cenários virtuais criados por chroma key.

A pergunta aparece com frequência em reuniões, feiras e produções audiovisuais: a tecnologia vai substituir a cenografia? Talvez estejamos fazendo a pergunta errada. Chroma key, LED e inteligência artificial não estão eliminando a cenografia. Estão ampliando suas possibilidades.

A verdadeira mudança não acontece entre cenários físicos e recursos digitais. Ela acontece entre profissionais que aprendem a utilizar essas ferramentas para criar experiências mais impactantes e aqueles que continuam trabalhando exatamente da mesma forma de anos atrás.

Ao longo da história, a cenografia sempre acompanhou a evolução tecnológica. Novos materiais, sistemas de iluminação, softwares de modelagem tridimensional e equipamentos de projeção transformaram a forma de projetar ambientes. Ainda assim, a essência do trabalho permaneceu a mesma: criar espaços capazes de transmitir mensagens, despertar emoções e fortalecer conexões entre pessoas e marcas.

O que vemos atualmente é mais um capítulo dessa evolução.

Os painéis de LED permitem mudanças instantâneas de ambiente, ampliam a imersão visual e oferecem possibilidades criativas que antes exigiam grandes estruturas físicas. A inteligência artificial acelera etapas de pesquisa, geração de referências e desenvolvimento conceitual. O chroma key expandiu as fronteiras da produção audiovisual ao permitir a construção de cenários praticamente ilimitados.

Mas nenhuma dessas tecnologias substitui aquilo que torna uma experiência memorável.

O avanço das ferramentas digitais, inclusive, tem reforçado a importância dos encontros presenciais. O 2025 Freeman Trust Report, estudo realizado pela Freeman com participantes e organizadores de eventos corporativos, revelou que 92% dos entrevistados afirmam que experiências ao vivo melhoram a percepção sobre uma marca, enquanto 95% relatam aumento da confiança após interações presenciais. O levantamento reforça que, mesmo diante da expansão de recursos digitais e ambientes virtuais, a conexão construída em experiências físicas continua sendo um dos principais fatores de fortalecimento de marcas (Freeman. 2025 Freeman Trust Report. Dallas: Freeman, 2025).

Os números mostram algo importante: pessoas continuam valorizando experiências reais.

Uma tela pode impressionar. Um cenário virtual pode criar imagens extraordinárias. Uma inteligência artificial pode gerar conceitos em poucos segundos. Mas nenhuma dessas soluções é capaz de reproduzir integralmente a experiência de ocupar um ambiente pensado para estimular sentidos, provocar emoções e criar conexão humana.

A cenografia vai muito além daquilo que aparece nas fotografias.

Ela envolve circulação, percepção espacial, iluminação, texturas, materiais, conforto, interação e comportamento. São elementos que influenciam diretamente a forma como um espaço é interpretado e que exigem decisões criativas baseadas em contexto, propósito e experiência prática.

Essa realidade também aparece nas estratégias das empresas. O EventTrack 2025, estudo desenvolvido pela Sparks em parceria com a Event Marketer, aponta que 74% dos líderes de marketing pretendem ampliar investimentos em ações experienciais. A pesquisa identificou ainda que a maioria dos consumidores desenvolve percepções mais positivas e maior intenção de relacionamento com marcas após vivenciar experiências presenciais, evidenciando que tecnologia e interação física não competem entre si, mas atuam de forma complementar na construção de valor (Sparks; Event Marketer. EventTrack 2025: Experiential Marketing Forecast & Benchmark Study. Nova York, 2025).

Essa complementaridade explica por que os maiores eventos do mundo continuam combinando cenografia física e tecnologia de ponta.

Shows utilizam LED sem abrir mão de estruturas cenográficas. Feiras corporativas incorporam recursos digitais sem abandonar espaços construídos para interação. Convenções apostam em inteligência artificial para potencializar conteúdos, mas seguem investindo em ambientes capazes de gerar impacto emocional.

A tecnologia não eliminou a necessidade de criar experiências. Ela elevou o nível de expectativa do público.

Hoje, o desafio não é escolher entre o físico e o digital. É integrar ambos de maneira inteligente.

Nenhum algoritmo consegue compreender sozinho a identidade de uma marca, interpretar o comportamento de um público específico, equilibrar limitações técnicas, orçamento, logística, segurança e objetivos de comunicação em um mesmo projeto. Essas decisões continuam dependendo de criatividade, repertório, sensibilidade e experiência.

Por isso, talvez a pergunta mais importante não seja se a inteligência artificial vai substituir a cenografia. A pergunta correta é: como a cenografia pode utilizar essas novas ferramentas para criar experiências ainda mais relevantes?

Porque, no fim das contas, as pessoas podem até se impressionar com uma tela. Mas é da experiência que elas se lembram.


*Mateus José Olímpio de Souza é cenógrafo especializado em grandes eventos. Com trajetória construída a partir da marcenaria familiar, atua no desenvolvimento e execução de projetos para shows, feiras, convenções e eventos corporativos. Sua operação integra marcenaria, serralheria, gráfica, costura e montagem, permitindo a criação de experiências visuais completas e ambientes de alto impacto para marcas e produções de diferentes portes.

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