Além do volante: a profissão de motorista mudou com a nova mobilidade
Da adaptação aos novos ônibus ao uso diário de novas tecnologias, profissionais do transporte público coletivo da Grande Goiânia contam como a inovação transformou a rotina de trabalho sem mudar o que consideram mais importante: o cuidado com as pessoas
Quem utiliza o transporte público coletivo da Região Metropolitana de Goiânia percebe que os ônibus mudaram. As viagens ficaram mais silenciosas, confortáveis e contam com veículos cada vez mais modernos. O que pouca gente vê é que essa mudança também transformou o dia a dia de quem está atrás do volante. Se antes a experiência do motorista estava concentrada no domínio do veículo e no conhecimento das ruas, hoje ela também passa pelo aprendizado constante. Novas tecnologias, diferentes formas de condução e sistemas que acompanham a operação em tempo real passaram a fazer parte da rotina. Ainda assim, uma característica permanece inalterada: a responsabilidade de conduzir milhares de passageiros todos os dias.
Durante mais de duas décadas, Cleudes Vilela Rocha aprendeu a reconhecer o comportamento de um ônibus pelo ronco do motor. A primeira viagem em um veículo elétrico mudou essa percepção. O silêncio, que no início causou estranhamento, rapidamente deu lugar a uma nova experiência de condução. "Foi uma experiência marcante. No começo estranhei a ausência do barulho e a resposta imediata do motor, mas rapidamente percebi o conforto, a estabilidade e a qualidade da condução", lembra.
Motorista há mais de 20 anos, Cleudes iniciou a carreira na HP Transportes em 2006 e, desde 2010, integra a equipe da Metrobus. Ao longo desse período, acompanhou a evolução dos veículos e viu a própria profissão ganhar novas exigências. Hoje, além de dirigir, também atua como instrutor de ônibus elétricos e movidos a biometano, preparando outros profissionais para operar essa nova geração de veículos. Para ele, os equipamentos embarcados oferecem suporte importante durante a operação, mas não mudam o papel de quem está na cabine. "A tecnologia facilita muita coisa, mas não toma decisões. Continuamos responsáveis pelo atendimento aos passageiros, pelas escolhas diante de situações inesperadas e pela segurança durante toda a viagem", ressalta.
Foi justamente a oportunidade de aprender que despertou a curiosidade de Maria Inês do Nascimento Silva quando ingressou no transporte coletivo, há pouco mais de três anos. Motorista da Rápido Araguaia, ela acompanhou a chegada dos ônibus elétricos e conta que a adaptação aconteceu de forma natural. "O ônibus elétrico é mais silencioso, tem uma aceleração mais suave e proporciona uma condução muito mais confortável para quem dirige e para quem está viajando", avalia.
O primeiro impacto veio justamente da ausência do barulho do motor. Depois, segundo ela, vieram outros benefícios percebidos durante a jornada, como a dirigibilidade mais leve e a sensação de menor desgaste ao longo do expediente. E as mudanças também chegaram aos passageiros. "Muitos comentam que o ônibus é mais confortável, silencioso e agradável. A maioria gosta bastante da experiência."
Antes de iniciar cada viagem, Maria Inês faz a conferência dos sistemas do veículo, acompanha as informações disponíveis durante a operação e sabe que pode contar com o apoio do Centro de Controle Operacional sempre que necessário. Mas o principal continua sendo o motorista. "A tecnologia tornou nosso trabalho mais eficiente, mas a experiência, a responsabilidade e o cuidado com as pessoas continuam sendo fundamentais", enfatiza.
Na Cooperativa de Transportes de Goiás (Cootego), Deborah Ribeiro também percebe que a profissão mudou em pouco tempo. Há quatro anos no transporte coletivo, ela iniciou na direção de veículos menores, que atendiam linhas de bairro e, hoje, dirige um ônibus de maior porte. Nesse período, viu a frota ganhar novos equipamentos e oferecer melhores condições de trabalho. "Quando iniciei, a realidade era um pouco diferente. Os veículos eram mais antigos e não contávamos com tantos recursos, como o ar-condicionado, que hoje faz parte da nossa rotina. A tecnologia evoluiu bastante, trazendo mais qualidade para o nosso trabalho e mais conforto aos passageiros", avalia.
Deborah acompanha de perto a evolução do sistema e acredita que a modernização beneficia tanto quem trabalha quanto quem utiliza o transporte coletivo. Ela destaca que os painéis eletrônicos passaram a reunir mais informações, facilitando a condução, enquanto a comunicação rápida com o Centro de Controle Operacional e as câmeras instaladas nos veículos oferecem mais segurança durante as viagens. "Os passageiros reagem com entusiasmo e é muito bom ver Goiás investindo em uma frota cada vez mais moderna", frisa a motorista.
Deborah e os colegas que já participaram dos treinamentos para operar os novos veículos relatam uma preparação cuidadosa, inclusive com acompanhamento das fabricantes. Ao olhar para a própria trajetória, percebe que seu crescimento profissional aconteceu junto com a transformação do transporte coletivo. "Vejo que estamos caminhando para um sistema cada vez mais moderno, tecnológico e confortável, valorizando os profissionais e oferecendo um serviço de mais qualidade para a população."
Modernidade e conforto
Thiago Ribeiro Souza começou a trabalhar na HP Mobilidade em 2023 e, desde o início, acompanhou de perto a implantação dos ônibus elétricos. No primeiro contato, confessa que a modernidade trouxe certo receio, sensação que desapareceu após o treinamento. "No começo fiquei apreensivo por ser um veículo muito mais moderno. Depois percebi que toda essa estrutura existe justamente para ajudar quem está dirigindo. Hoje a comunicação é muito mais humana. Você sabe que existe alguém acompanhando a viagem e pronto para ajudar quando necessário. Isso transmite segurança", destaca.
Quem utiliza o transporte coletivo também demonstra perceber essas diferenças, observa Thiago. "Sempre que chegam um ônibus convencional e um elétrico ao mesmo tempo, muita gente prefere o elétrico. Os passageiros comentam sobre o conforto, a climatização, o silêncio e como a viagem fica mais agradável", relata.
Embora com histórias e tempos de profissão diferentes, Cleudes, Maria Inês, Deborah e Thiago compartilham a mesma percepção. A profissão mudou junto com o transporte coletivo. Os ônibus ficaram mais modernos, novas tecnologias passaram a fazer parte da cabine e aprender deixou de ser uma etapa para se tornar parte da rotina. No fim das contas, porém, o que continua fazendo diferença é quem está ao volante. São a experiência, a atenção e a capacidade de tomar decisões que transformam tecnologia em segurança e garantem que milhares de pessoas cheguem ao destino todos os dias.
Capacitação acompanha evolução da frota
A evolução do transporte coletivo também mudou a forma de preparar os motoristas. Nas empresas que operam o sistema da Região Metropolitana de Goiânia, a capacitação deixou de acontecer apenas na admissão e passou a acompanhar as mudanças da operação e da frota. Além do domínio da condução, os motoristas passaram a conviver com tecnologias embarcadas, sistemas de monitoramento e novos equipamentos que exigem atualização constante. Por isso, os treinamentos combinam atividades práticas e teóricas e continuam mesmo depois que o profissional inicia a operação.
Na Rápido Araguaia, a preparação envolve desde o funcionamento dos veículos e das tecnologias embarcadas até temas ligados à segurança, atendimento aos passageiros e condução eficiente. A empresa também mantém ações periódicas voltadas ao desenvolvimento comportamental, com acompanhamento dos profissionais após férias ou afastamentos mais longos e atividades direcionadas ao bem-estar e à valorização das equipes.
Na Metrobus S/A, a chegada dos ônibus elétricos e dos veículos movidos a biometano trouxe capacitações específicas para apresentar os novos sistemas, as características de condução e os procedimentos de segurança. O treinamento inclui atividades supervisionadas antes que o motorista assuma a operação regular e segue com atualizações frequentes sobre direção segura, condução econômica e utilização dos recursos disponíveis nos veículos.
Na formação continuada dos motoristas da Cooperativa de Transportes de Goiás (Cootego), os treinamentos abordam direção defensiva, atendimento ao usuário, legislação de trânsito, prevenção de acidentes, relacionamento interpessoal e uso adequado dos sistemas embarcados presentes na frota.
A HP Mobilidade também monitora indicadores individuais de desempenho durante a operação. As informações permitem identificar oportunidades de melhoria e direcionar capacitações conforme a necessidade de cada motorista, fortalecendo a segurança, a eficiência operacional e a qualidade do atendimento aos passageiros. Para a empresa, a profissão continuará sendo essencial, mas exigirá profissionais cada vez mais preparados para utilizar tecnologias e ferramentas digitais no dia a dia.
As empresas também destacam que a tecnologia passou a ser uma aliada na gestão da operação. Sistemas de telemetria e monitoramento acompanham indicadores relacionados à condução, ao desempenho dos veículos e às ocorrências registradas durante as viagens. As informações são utilizadas para aperfeiçoar processos, orientar novos treinamentos e fortalecer a cultura de segurança.

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