A falta de habilidade digital está levando empresas a aprender com a geração Z
Enquanto a experiência continua sendo
essencial, a velocidade de adaptação às novas tecnologias transformou
profissionais mais jovens em importantes agentes de aprendizado dentro das
organizações
Por Leonardo Ribeiro Dalben
Durante muito tempo, o conhecimento dentro das
empresas seguiu um caminho previsível: dos profissionais mais experientes para
os mais jovens. Essa lógica continua fundamental para a formação de talentos e
para a transmissão de conhecimento técnico e estratégico. No entanto, a
aceleração tecnológica vem criando um fenômeno cada vez mais visível nas
organizações: em temas relacionados à tecnologia, inteligência artificial e
transformação digital, a troca de conhecimento também começa a acontecer no
sentido inverso.
Recentemente, fui contratado por uma empresa
para apoiar equipes de desenvolvimento na adoção de ferramentas de inteligência
artificial. O que mais chamou minha atenção não foi a tecnologia em si, mas a
diferença na velocidade de adaptação entre profissionais de gerações distintas.
Muitos colaboradores altamente qualificados,
com décadas de experiência, ainda demonstravam dificuldade para incorporar
recursos que já fazem parte da rotina de uma nova geração. Não se trata de
falta de competência. Trata-se de familiaridade digital.
A transformação tecnológica deixou de ser um
projeto de longo prazo para se tornar uma exigência imediata. Novas plataformas
surgem constantemente, recursos são atualizados em questão de semanas e modelos
de inteligência artificial evoluem em ritmo acelerado. Nesse cenário, a
capacidade de aprender rapidamente tornou-se tão importante quanto a
experiência acumulada ao longo da carreira.
É justamente nesse contexto que a geração Z
passa a ganhar protagonismo. A pesquisa Gen Z and Millennial Survey 2025,
da Deloitte, mostra que 74% dos profissionais da geração Z acreditam que a
inteligência artificial generativa impactará significativamente sua forma de
trabalhar já no curto prazo. O levantamento também revela que aprendizado
contínuo e desenvolvimento profissional estão entre os fatores mais valorizados
por esses jovens na escolha de um empregador (DELOITTE. 2025 Gen Z and
Millennial Survey. Londres: Deloitte, 2025).
Na prática, isso significa que muitos desses
profissionais já estão experimentando, aprendendo e incorporando novas
tecnologias antes mesmo que elas sejam oficialmente adotadas pelas empresas.
Ao mesmo tempo, o mercado enfrenta uma
crescente demanda por competências digitais. O Future of Jobs Report 2025,
do Fórum Econômico Mundial, aponta que habilidades relacionadas à inteligência
artificial, análise de dados, alfabetização tecnológica e segurança digital
estarão entre as mais valorizadas até 2030. O estudo também destaca que a
lacuna de competências figura entre os principais obstáculos para a transformação
dos negócios em todo o mundo (WORLD ECONOMIC FORUM. The Future of Jobs
Report 2025. Genebra: World Economic Forum, 2025).
Nesse cenário, tenho observado empresas que
antes priorizavam exclusivamente experiência profissional começarem a valorizar
também a capacidade de acelerar o aprendizado coletivo. Em alguns casos, jovens
colaboradores tornam-se referências internas para colegas mais experientes
quando o assunto envolve inteligência artificial, automação de processos ou
novas plataformas digitais.
Esse movimento ajuda a desconstruir um
estereótipo recorrente sobre a geração Z. Frequentemente rotulados como
profissionais menos comprometidos ou impacientes, esses jovens demonstram uma
relação diferente com carreira, produtividade e desenvolvimento profissional. A
própria Deloitte identificou que 70% dos profissionais dessa geração buscam
desenvolver novas habilidades pelo menos uma vez por semana, demonstrando uma
disposição constante para aprender e se adaptar às mudanças (DELOITTE. 2025
Gen Z and Millennial Survey. Londres: Deloitte, 2025).
Isso não significa que as empresas devam
substituir experiência por juventude. Pelo contrário. Os melhores resultados
surgem justamente quando diferentes gerações trabalham juntas.
Profissionais mais experientes trazem repertório,
visão estratégica, conhecimento do negócio e capacidade de julgamento
construída ao longo dos anos. Já os mais jovens costumam apresentar maior
familiaridade com ambientes digitais, rapidez na adoção de novas ferramentas e
disposição para experimentar soluções inovadoras.
A combinação dessas competências cria
organizações mais adaptáveis, preparadas e competitivas.
O erro está em enxergar a transformação digital
como responsabilidade exclusiva da área de tecnologia ou de um grupo específico
de funcionários. A adaptação tecnológica tornou-se uma competência
organizacional. Não depende apenas das ferramentas implementadas, mas da
capacidade coletiva de aprender, compartilhar conhecimento e evoluir
continuamente.
As empresas que compreenderem isso mais cedo
estarão mais preparadas para enfrentar as mudanças que já estão redefinindo o
mercado de trabalho. E talvez uma das formas mais inteligentes de acelerar esse
processo seja reconhecer que, em determinados assuntos, os profissionais mais
jovens não estão apenas aprendendo. Eles também estão ensinando.
*Leonardo Ribeiro
Dalben é desenvolvedor de software com mais de 5 anos de experiência,
especialista em inteligência artificial e arquitetura de sistemas. Atua com
tecnologias como .NET, cloud e microserviços, com foco em eficiência
operacional e soluções escaláveis para diferentes setores, incluindo aplicações
baseadas em IA.

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