Os golpes com IA estão cada vez mais inteligentes. Como se precaver?
De vídeos falsos a chamadas de vídeo
manipuladas, a nova geração de golpes digitais explora tecnologias de
inteligência artificial para enganar vítimas com alto grau de realismo
Em poucos
segundos, um vídeo pode mostrar um empresário recomendando um investimento
milagroso. Uma celebridade pode aparecer pedindo doações urgentes. Ou até um
“chefe” pode surgir em uma chamada de vídeo pedindo uma transferência imediata.
O problema é que, muitas vezes, nada disso é real.
A
inteligência artificial elevou o nível das fraudes digitais a um novo patamar.
O que antes era um e-mail mal escrito ou uma mensagem suspeita hoje pode vir na
forma de vídeos, vozes clonadas e perfis extremamente convincentes. Para
especialistas, estamos entrando em uma fase em que distinguir o real do
fabricado exige cada vez mais atenção.
Os
números mostram que o fenômeno já é global. No Brasil, as fraudes com deepfakes
e identidades sintéticas cresceram 126% entre 2024 e 2025, segundo o relatório
Identity Fraud Report 2025–2026. O país concentra quase 39% de todos os
deepfakes detectados na América Latina.
E não
se trata apenas de tecnologia avançada, como também de escala. Um levantamento
da empresa de cibersegurança Kaspersky identificou 309 milhões de tentativas de
phishing bloqueadas no Brasil em um ano, o equivalente a 588 ataques por
minuto.
O
impacto econômico também é significativo. Dados do DataSenado indicam que 24%
dos brasileiros adultos foram vítimas de golpes digitais nos últimos 12 meses,
gerando perdas estimadas em R$ 10,1 bilhões em 2024, segundo a Febraban.
Para
quem acompanha de perto o avanço do audiovisual e da tecnologia, o cenário é
claro: a inteligência artificial se tornou uma ferramenta poderosa tanto para
criar quanto para enganar. “Hoje qualquer pessoa consegue gerar imagens, vídeos
e vozes extremamente convincentes. A tecnologia não é mais restrita a grandes
estúdios ou laboratórios. Isso abre oportunidades criativas enormes, mas também
cria um ambiente perfeito para fraudes sofisticadas”, explica Náthan Ximenes,
diretor criativo e estrategista de comunicação digital, fundador da NTX Group.
Grande
parte dos golpes atuais usa deepfakes, tecnologia que permite manipular imagens
ou vozes para simular pessoas reais. Em muitos casos, criminosos utilizam
rostos de figuras públicas ou executivos de empresas para ganhar credibilidade
rapidamente.
O
fenômeno não para de crescer. Um estudo do Observatório Lupa mostrou que
conteúdos falsos gerados com inteligência artificial aumentaram 308% entre 2024
e 2025 no Brasil, que circulam principalmente em redes sociais e aplicativos de
mensagens. Muitas vezes, aparecem como anúncios patrocinados ou vídeos virais.
Náthan
observa que a sofisticação dessas produções pode confundir até usuários
experientes. “Estamos chegando a um ponto em que, para um público leigo, é
praticamente impossível identificar um vídeo falso apenas olhando rapidamente.
Pequenos detalhes técnicos como repetição de elementos na imagem ou inconsistências
no movimento ainda podem denunciar a manipulação, mas eles estão ficando cada
vez mais sutis”, afirma.
O
especialista aponta que o modelo das fraudes também mudou. Antes, o objetivo
era atingir muitas pessoas com golpes simples. Agora, a estratégia é apostar em
ataques mais elaborados e direcionados. Entre os golpes mais comuns
impulsionados por IA estão:
- Vídeos
falsos de celebridades promovendo investimentos ou plataformas financeiras;
- Clonagem
de voz para simular familiares ou executivos;
- Anúncios
de emprego ou renda extra com depoimentos fabricados;
- Perfis
falsos que replicam influenciadores ou especialistas;
- Reuniões
virtuais manipuladas com deepfake para autorizar transferências.
Apesar
da sofisticação das fraudes, algumas práticas continuam sendo fundamentais para
reduzir riscos. Náthan destaca que o primeiro passo é desenvolver uma postura
mais crítica diante do conteúdo digital. “A regra número um é desconfiar de
qualquer mensagem que pressione por urgência ou dinheiro. Golpistas exploram
emoção e pressa. Quando a pessoa para, verifica e cruza informações, a chance
de cair em fraude diminui drasticamente”, explica.
Entre
as recomendações mais comuns do especialista estão:
Verificar a fonte: Antes
de confiar em um vídeo ou mensagem, confirme se ele aparece também nos canais
oficiais da pessoa ou empresa citada.
Desconfiar de promessas fáceis: Ofertas
de investimento com ganhos garantidos ou “oportunidades exclusivas” são
frequentemente usadas como isca.
Checar detalhes visuais: Em
vídeos manipulados, podem surgir distorções sutis em mãos, sombras, movimentos
faciais ou repetição de elementos.
Confirmar pedidos financeiros por outro
canal: Se um chefe ou familiar pedir dinheiro por mensagem ou
vídeo, confirme por telefone ou pessoalmente.
Evitar clicar em links recebidos por
redes sociais ou mensagens: Muitos golpes começam com
páginas falsas que imitam sites legítimos.
A
tecnologia que permite criar fraudes sofisticadas é a mesma que está
revolucionando setores inteiros da economia, do audiovisual à publicidade, do
marketing ao entretenimento. Para o especialista, o ponto central não é
combater a inteligência artificial, mas aprender a conviver com ela. “A IA não
é vilã. Ela é uma ferramenta poderosa. O problema é quando pessoas
mal-intencionadas usam essa tecnologia para manipular confiança. Por isso,
educação digital e pensamento crítico serão cada vez mais importantes nos
próximos anos”.
Em um
mundo onde imagens, vozes e histórias podem ser geradas em segundos, a
capacidade de questionar o que vemos talvez seja a habilidade mais valiosa da
era digital.

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